Pioneiro Memória- AHMJSA-Uma cidade múltiplos olhares-

História07/03/2016 | 08h01

Memória: uma cidade, múltiplos olhares

Publicação 'O Instante e o Tempo' mapeia a trajetória dos fotógrafos que atuaram em Caxias entre 1885 e 1960

Memória: uma cidade, múltiplos olhares Domingos Mancuso/Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spdari Adami,divulgação
A cascata do Arroio Tega no bairro Santa Catarina em 1910.Foto: Domingos Mancuso / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spdari Adami,divulgação
Eternizando famílias em estúdio, registrando o cotidiano do Centro e dos arrabaldes, percorrendo o interior ou flagrando aqueles "instantes mágicos", eles traduziram em imagens a Caxias que iniciou como colônia, atingiu a condição de cidade em 1910 e transformou-se em metrópole a partir dos anos 1950.

Falamos dos fotógrafos que atuaram no município entre os primórdios da colonização e o início dos anos 1960 - vida e obra de cada um deles estão sintetizadas na publicação O Instante e o Tempo: A Fotografia em Caxias do Sul, 1885-1960, lançada sexta-feira (4), dentro da programação da Festa da Uva, nos Pavilhões.

Caxias pelas lentes do fotógrafo Reno Mancuso

Mauro De Blanco e o Inferno de Dante em 1952

A obra pega carona em uma série de datas representativas, como os 140 anos de imigração italiana e os 40 do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, celebrados em 2016. É o minucioso trabalho desenvolvido pela equipe do Arquivo desde 1976, aliás, o responsável por costurar, em textos e imagens, esse panorama fundamental para se entender a história de Caxias, ontem e hoje.
- O livro busca entrelaçar histórias de vida e de trabalho, tornando real um sonho alimentado ao longo desses 40 anos - avalia Elenira Prux, diretora da instituição fundada em 1976.

Para recordar do Studio Geremia

Studio Tomazoni e a inauguração do Monumento ao Imigrante em 1954
Responsável pela curadoria das imagens, a professora Susana Storchi percorreu o acervo da instituição em busca dos registros mais representativos de cada fotógrafo (confira lista mais abaixo). Porém, houve casos em que o Arquivo não dispunha de material suficiente para mapear a trajetória de alguns dos profissionais já falecidos. Nessa etapa, familiares e instituições foram contatados.

Outros, como Ary Pastori, Remy Bisol e José e Ilda Maccagnan, também contribuíram para ilustrar o próprio trabalho. No caso de Vasco Rech, algumas das imagens englobaram o período em que ele atuou no jornal Pioneiro, nos anos 1970 e 1980.

Studio Geremia: parceiro da coluna Memória
Se as fotos falam por si, a narrativa realizada por Sônia Storchi Fries passou pela história de vida, o início e o aprendizado na profissão, as técnicas e equipamentos utilizados e os estúdios e laboratórios mantidos. Os textos foram complementados por trechos de depoimentos dos próprios fotógrafos e de familiares e colaboradores.

Entra aí a importância fundamental do Banco de Memória Oral, que dispõe de entrevistas gravados com Antônio Beux, Ary Cavalcanti, Clemente Tomazoni, Mauro De Blanco, Ulysses Geremia e Valério Zattera (in memoriam) e também com Ary Pastory, Ignês Muner (filha de Sisto Muner), Ilda Polesso Maccagnan, José Maccagnan, Remy Bisol e Vasco Rech.
- Desde o início, o Arquivo Histórico desenvolveu pesquisas, projetos, gravação de entrevistas, exposições, sempre buscando mapear a produção fotográfica em Caxias e região e ampliar o acervo fotográfico da instituição. Publicar essa obra é um privilégio, principalmente em 2016, quando se comemoram esses 40 anos de atuação - complementa Elenira.

Arquivo Histórico Municipal: um casarão para a história

Um ensaio no interior da Loja Magnabosco nos anos 1950

Como adquirir
Os livros serão distribuídos a partir de 10 de março a entidades, doadores do Arquivo Histórico e demais interessados, mediante contato pelos fones 3218.6114 ou 3901.1318. 

A publicação, que traz ainda textos da secretária da Cultura, Rubia Frizzo, do fotógrafo e historiador Boris Kossoy e da diretora de Patrimônio, Liliana Henrichs, tem tiragem inicial de 300 exemplares. 

Mas, pela qualidade e relevância histórica do trabalho, uma segunda edição será mais do que bem-vinda...

Hildo Boff, Óptica Caxiense e a neve de 1965

Confira outras publicações da coluna Memória



Velório de Dante Morganti em 1898. Foto: Giovanni Batista Serafini/ Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação


Retrato da família Torresini em 1893. Foto: Francesco Moscani/ Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Os fotógrafos

* Giovanni Battista Serafini
 (1869-1954)
* Francesco Moscani (sua presença em Caxias deu-se entre 1888 e 1901)
* Umberto Zanella (1878-1957)
* Domingos Mancuso (1885-1942)
* Reno Mancuso (1919-1974)
* Primo Postali (1874-1949)
* Giacomo Geremia (1880-1966)
* Ulysses Geremia (1911-2001)
* Julio Calegari (1886-1938)
* Sisto Muner (1892-1974)
* Rodolfo Balzaretti (1889-1960)
* Jacob Kappes (1900-1980)
* Valério Zattera (1911-1996)
* Amadeu Zinani (1912-2002)
* Ary Cavalcanti (1912-1994)
* Mauro De Blanco (1923-2010)
* Clemente Tomazoni (1919-1990)
* Antonio Beux (1921-1994)
* Hildo Boff (1931-2014)
* Waldemar Lazzzarotto (1921-1984)
* João Rech (1931-1986)
* Remy Bisol
* Ary Pastori
* Vasco Rech 
* José e Ilda Maccagnan
Waldemar Lazzarotto e a Terceira Légua de Caxias em 1939

Sisto Muner e a nova igreja de Galópolis em 1947

Endereços para recordar da história de Caxias do Sul
Passeio no Veraneio Germani, no bairro Santa Catarina, em 1913. Foto: Umberto Zanella / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Pintura sobre fotografia da senhora Ione Ronca, em 1923. Foto: Julio Calegari/ Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação
Entrevista: Elenira Prux, diretora do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

Esta é a primeira publicação que mapeia a trajetória dos fotógrafos de Caxias? 

Elenira Prux: Durante quase 40 anos, o Arquivo Histórico desenvolveu pesquisa, projetos, gravação de entrevistas, exposições, sempre objetivando o mapeamento da produção fotográfica em Caxias e na região e a ampliação do acervo fotográfico da instituição. A parceria e os projetos desenvolvidos com a Funarte - Fundação Nacional de Arte - com sede no RJ, também foi uma constante desde a década de 1980, como forma de assessorar e orientar o processamento e a preservação dos acervos fotográficos recebidos. Publicar esta obra é um sonho que a instituição alimenta há mais de 30 anos, e poder estar fazendo parte deste processo é um privilégio, principalmente no ano em que se comemoram 40 anos de existência e atuação.

Arquivo e Museu já promoveram exposições temáticas de vários dos fotógrafos abordados. Existe algum deles que nunca teve um reconhecimento oficial? 
Elenira Prux: A escolha dos fotógrafos contemplados nas exposições está diretamente ligada às doações recebidas e também à aquisição do acervo do Studio Geremia. Assim, fotógrafos como Domingos Mancuso, Giacomo e Ulysses Geremia, Julio Calegari, Primo Postali e Mauro De Blanco já foram contemplados e homenageados nas exposições realizadas desde a década de 1980. Com a realização da Semana da Fotografia, em parceria com outras instituições, desde 2008, tem-se homenageado, intercaladamente, fotógrafos que permanecem na memória da cidade e outros contemporâneos.

Doações enriquem acervo do Arquivo Histórico e auxiliam pesquisas

Como foi feita a curadoria das imagens? Que linha narrativa o livro segue? 
Elenira Prux: A curadoria é de Susana Storchi, que percorreu o acervo da instituição em busca das imagens mais representativas da obra dos fotógrafos elencados. O Arquivo Histórico possui um acervo quase completo da obra dos fotógrafos Giovanni Battista Serafini, Francesco Moscani, Umberto Zanella, Domingos e Reno Mancuso, Primo Postali, Giacomo e Ulysses Geremia, Julio Calegari, Ary Cavalcanti, Mauro De Blanco e Hildo Boff, a maioria provinda de doações. Porém, há casos em que a instituição não possuía acervo suficiente para a obra, como Sisto Muner, Clemente Tomazoni, Waldemar Lazzarotto, Rodolfo Balzaretti, Jacob Kappes, Valério Zattera, Amadeo Zinani, João Rech, Antonio Beux. Por isso, contatou familiares e instituições, com o objetivo de melhor reproduzir o trabalho por eles desenvolvido.

Outros fotógrafos, como Ary Pastori, Remy Bisol, José e Ilda Maccagnan, também contribuíram para ilustrar o seu próprio trabalho e a obra em questão. Quanto ao fotógrafo Vasco Rech, o Jornal Pioneiro cedeu imagens referentes ao trabalho por ele produzido para aquele jornal. Cabe mencionar que o Arquivo Histórico possui entrevista gravada com os seguintes fotógrafos: Antônio Beux, Ary Cavalcanti, Clemente Tomazoni, Mauro De Blanco, Ulysses Geremia e Valério Zattera (todos in memoriam). E também Ary Pastory, Ignês Muner, Ilda Polesso Maccagnan, José Maccagnan, Remy Bisol e Vasco Rech.  No recorte temporal da obra, tivemos a atuação de 25 fotógrafos (homens) e somente duas mulheres, Ilda Maccagnan e Ignês Muner.

Arquivo Histórico Municipal: Banco de Memória eterniza histórias
É possível definir a relevância maior algum de acervo mantido pelo Arquivo?
Elenira Prux: É muito difícil mensurar a relevância de um ou outro acervo. Cada um é único e retrata uma determinada época ou técnica. A instituição preserva muitas fotografias em papel a partir de 1885. O Álbum Recor­dação das Colônias Conde D'Eu, D. Isabel, Alfredo Chaves, Antonio Prado e Caxias é um documento raro e único deste período e versa sobre o início da colonização na região. Quanto aos negativos em vidro, o acervo do fotógrafo Domingos Mancuso, doado em 1983 por Francisco Fortuna, é o mais antigo produzido em Caxias e que foi preservado, mas a instituição possui ainda um acervo significativo do fotógrafo Julio Calegari, mais de 9 mil negativos de vidro do Studio Geremia, entre outros.

Giovanni Serafini e Francesco Moscani: para recordar das antigas colônias

Qual a importância desse tipo de publicação para a memória visual da cidade?

Elenira Prux: A publicação sintetiza a produção fotográfica no município desde o início da sua formação. Através desta publicação é possível perceber a evolução da fotografia, da técnica e dos equipamentos utilizados ao longo de quase um século. São registros de estúdio, imagens da cidade, panorâmicas do final do século XIX, quando era necessário capturar imagens em mais de um ângulo, revelar, e depois agrupar fisicamente uma ao lado da outra para obter este resultado. É possível identificar, também, as primeiras imagens em que o equipamento "mais moderno" para a época, permitiu  capturar o movimento na cena fotografada.


Registro de uma primeira comunhão em 1930. A menina da imagem não foi identificada. Foto: Giacomo Geremia/ Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

O músico Honeyde Bertussi em Criúva, em 1948. Foto: Ary Cavalcanti / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação


O casal Enio Arioli e Ada Chiarada Arioli em 1952. Foto: Studio Tomazzoni/ Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Tendeiras da Festa da Uva de 1950, com a jovem Neda Ungaretti sentada ao centro. Foto: Jacob Kappes / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

Passeio no Parque dos Macaquinhos (Parque Getúlio Vargas) em 1965, ainda com o lago. Foto: Studio Beux / Acervo Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, divulgação

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